O último carteiro de São Paulo
Seu Agenor não sabia ler. Isso nunca foi um problema.
Em quarenta e três anos de correio, aprendeu a entregar cartas pelo cheiro. Dizia que carta de amor cheirava a papel molhado — porque quem escreve carta de amor sempre chora em cima, mesmo que negue. Carta de cobrança cheirava a café velho, daquele que fica na garrafa térmica do escritório depois das seis. Carta de despedida não cheirava a nada. Era a mais perigosa. O vazio tem esse dom de não se anunciar.
Eu o conheci num sábado de março, quando o calor de São Paulo derretia até as boas intenções. Estava sentado no banco da praça da República, com um saco de pão de queijo no colo e um uniforme azul tão desbotado que parecia ter sido lavado com o próprio suor do ofício.
itália№ 02
O Fim das Superfícies Lisas
Eu não quero a faca, eu não quero o queijo, eu quero é a fome.
Foi com esse verso de Adélia Prado que o Professor Zeca de Mello, paraninfo da Turma 125, a minha querida turma, abriu o seu discurso final. Naquele instante, ainda não sabíamos que aquela frase deixaria de ser apenas uma citação bonita para se tornar uma espécie de bússola secreta, dessas que não apontam para o norte, mas para dentro.
Ele nos levou de volta ao começo e falou sobre duas das maiores professoras de nossas vidas: as crises e as crianças.
japão№ 04
Não viemos para buscar dias iguais
Há um erro silencioso que eu cometo com frequência: tratar a vida como algo a ser administrado, e não atravessado.
Eu organizo, planejo, otimizo. Faço listas, escolhas racionais, movimentos “seguros”. E, sem perceber, vou empurrando para fora tudo aquilo que não cabe em planilhas: o raro, o incômodo, o único.
Raridades não são eficientes.
nova york№ 06
Talvez elas voltem com o vento
Ninguém soube ao certo quando começou, mas naquela manhã, as amizades começaram a bater asas.
Literalmente.
Algumas cresceram penas azuis e foram embora pela janela, sem nem deixar bilhete.
amazônia№ 07
O movimento como tentativa de ficar
Um mergulho nos esportes intensos e em minhas maratonas internas, na tentativa de descobrir o que há por trás do suor, da disciplina e dos novos rituais da juventude moderna.
A vontade que calça o tênis
De uns tempos pra cá, todo mundo começou a correr. Até eu, mesmo sem gostar. Mesmo sem saber direito o porquê. Talvez para acompanhar, talvez para fugir. Ou pra sentir que ainda tô indo para algum lugar.
amazônia№ 08